Mar.

agosto 20, 2008

"e soubesse eu artifícios
de falar sem o dizer
não ia ser tão difícil
revelar-te o meu querer...
a timidez ata-me a pedras
e afunda-me no rio
quanto mais o amor medra
mais se afoga o desvario...
e retrai-se o atrevimento
a pequenas bolhas de ar
e o querer deste meu corpo
vai sempre parar ao mar"
(canta a DEOLINDA)

agosto 12, 2007




"a minha primeira visão da terra foi através da água. pertenço à raça de homens e mulheres que olham todas as coisas através desta cortina de mar e os meus olhos são a cor da água."
, anais nin
, edvard munch young girl on a jetty

julho 19, 2007

Tanta Saudade

maio 21, 2007

BÚZIO

sei que nunca viste o oceano,
que nunca olhaste a onda sobre a onda,
que nunca fizeste castelos para o mar ser forte.

mas sei que já viste o coração das coisas,
que já tocaste a ferida nos nossos braços,
que já escreveste para sempre o nome da terra.

por isso te digo que vou levar-te o mar
na concha das minhas mãos, azulíssimo,
para que nele descubras o meu nome
entre os seixos os búzios os rostos que já tive.


Vasco Gato

janeiro 25, 2007

Palheiros de Mira, 26 de Junho de 1949.

O dia inteiro deitado na areia, bêbedo de sol, de sal e de som. Fui com os homens ao mar, ouvi-os cantar o Avé enquanto a corda da rede deslisava no bordo do barco, mas, apenas desembarquei, estendi-me novamente no chão, e ali fiquei ensimesmado a olhar. Não há dúvida que nunca serei capaz de dizer coisa com coisa do muito que trago na alma e tenho recolhido no meu já longo caminho. Tanto livro, tanta palavra, tanto esforço, e nada! Chocalha um oceano inteiro dentro de mim, e não consigo ir além dum poema estúpido, sonolento, que acaba assim:

O mar é bom,
Toca música.


Miguel Torga, Diário V.

dezembro 28, 2006

Nocturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental

dezembro 15, 2006

"Together we're invincible"

junho 20, 2006

suspiro tardio

Se ao menos eu sentisse totalmente
o movimento da terra em volta do sol.
se eu pudesse conhecer o segredo
da germinação sem roubar da terra
a vida enorme, o rebentar largamente.

se me fosse permitida a amplitude,
a alegria, o agora das planícies
em fim de tarde, e eu não mais
precisasse de trabalhar a atenção,
assim descalço sobre a realidade.

promete-me que amanhã virá a lua
e que, na imensidão da noite iluminada,
cantaremos o mar um para o outro.

promete-me que no fim terei existido.


(VASCO GATO)

janeiro 10, 2006

O último andar

No último andar é mais bonito:
do último andar se vê o mar.
É lá que eu quero morar.

O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é lá que eu quero morar.

Todo o céu fica a noite inteira
sobre o último andar
É lá que eu quero morar.

Quando faz lua no terraço
fica todo o luar.
É lá que eu quero morar.

Os passarinhos lá se escondem
para ninguém os maltratar:
no último andar.

De lá se avista o mundo inteiro:
tudo parece perto, no ar.
É lá que eu quero morar:
no último andar.

Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo

dezembro 04, 2005

Homo


Nenhum de vós ao certo me conhece,
Astros do espaço, ramos do arvoredo,
Nenhum adivinhou o meu segredo,
Nenhum interpretou a minha prece...

Ninguém sabe quem sou... e mais, parece
Que há dez mil anos já, neste degredo,
Me vê passar o mar, vê-me o rochedo
E me contempla a aurora que alvorece...

Sou um parto da Terra monstruoso;
Do húmus primitivo e tenebroso
Geração casual, sem pai nem mãe...

Misto infeliz de trevas e de brilho,
Sou talvez Satanás - talvez um filho
Bastardo de Jeová - talvez ninguém!

Antero de Quental

novembro 13, 2005

Olhos tristes

Não gosto das lutas com as coisas que aleijam as outras pessoas que gostam e não querem perder. Amo cada ruga de amor, de espera. Não gosto de gumes que partem.


"Menina dos olhos tristes
o que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar

A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar

Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar"


Música: José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, dito José Afonso (1929-1987)
Letra: Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, dito Reinaldo Fereira (1922-1959)
Incipit: Menina dos Olhos Tristes
Origem: Algarve (Faro)
Data: ca. 1962-1963

novembro 07, 2005

Light Movie

So, come on and call me superficial, like the sun does to the sea: I’m here for the wine and some other time I’ll solve the world’s greatest mysteries


(Belle Chase Hotel, 2000. La Toilette des Étoiles.)

novembro 06, 2005

numa manhã como esta, vou lá a baixo, num instante, embriagar-me do mar.

outubro 23, 2005

Por maior que seja o amor, a dor, a tristeza, o poder de um coração, ninguém pode recriar o mar. Em sítio mais nenhum.


(Ondjaki, 2002. O Assobiador. Lisboa: Editorial Caminho)